sexta-feira, 28 de julho de 2017

Bem escrito

"Creio que, numa relação, o beijo terá sempre de manter a densidade do primeiro, a história de uma vida, todos os pores-do-sol, todas as palavras murmuradas no escuro, toda a certeza do amor. Mas já não é assim. Agora sabem às vacinas que tínhamos de dar à cadela (já morreu), às conversas com o director da escola, à loiça por lavar, à lâmpada que falta mudar, às infiltrações no tecto, às reuniões de condóminos. Toco levemente os lábios dela e sabe-me à rotina, às Finanças, ao barulho da máquina de lavar roupa. Beijamo-nos como quem faz a cama."

Flores, Afonso Cruz

Sem comentários:

Enviar um comentário